A Noiva

Desde a morte da noiva, três meses antes, que a vida do Rui embarcara na melancolia típica da situação. Mais do que isso, aquele jovem adulto deixara-se arrastar para uma grave monotonia sem se conseguir aperceber disso.
Todos os dias, fim-de-semana incluído, o despertador tocava às 7. Levantava-se, higiene pessoal, as calças, a camisa, os sapatos, os cereais com leite, o trajecto de carro para o trabalho... Tudo era igual, todos os dias.
Era com outra rotina diária que terminava os seus dias: religiosamente regava os Bonsai que a noiva lhe oferecera. Um em cada aniversário durante todos os anos que passaram juntos até ao dia em que um acidente a levara.
Ele próprio impusera aquela rotina como se fosse um casulo que o protegia. Era a sua zona de conforto. A sua casa, o seu trabalho, os seus Bonsai.
Num dia igual a todos os outros que tivera, Rui preparava-se para as duas últimas fases do dia: regar os seus Bonsai e dormir. Aqueles Bonsai eram o que restava da sua felicidade. Eram a representação física da presença constante da Sara na sua vida. Era frequente falar com eles como se falasse com ela.
Tinha-os na varanda do quarto de onde tinha uma vista panorâmica sobre a rua e o resto da vila. Vista essa de que o Rui nunca se apercebera nem desfrutara. Mas naquela noite algo diferente se destacava no panorama de moradias desenhado na paisagem.
Depois dos Bonsai regados e do usual diálogo que encetava com eles, o Rui voltava para o quarto quando uma mancha branca na paisagem lhe captou a atenção pelo canto do olho. Voltou-se para ver melhor e o que viu surpreendeu-o: para a sua direita, ao fundo da rua e no meio da estrada, estava uma mulher com um longo vestido branco; nas mãos segurava algo que pela distância era difícil identificar, mas que ele assumiu ser um ramo de flores.
Estava imóvel. A cabeça estava baixa e não permitia reconhecer o rosto. Rui ficou intrigado, mas não mais do que isso. Admirou a cena por alguns segundos e retomou a sua rotina e o caminho do quarto, abanando a cabeça e pensando naquele estranho comportamento.
A noite foi leve como sempre desde que começou com a medicação. No dia seguinte voltou à rotina como um relógio: levantar, higiene pessoal, as calças, a camisa, os sapatos... Até à noite.
Na sua rega diária, na varanda, o ponto branco que lhe captou a atenção voltou a surgir. Igualmente no meio da rua, com o mesmo vestido e a mesma postura, mas desta vez estava alguns metros mais próximo da sua casa.
Rui dedicou-lhe mais tempo naquela noite. Ficou a observá-la durante alguns segundos, aproveitando a noite de verão como já não fazia há algum tempo. Já lhe tinha esquecido o sabor.
Olhou o céu estrelado.
Observou a lua.
Depois voltou a olhar para a estrada para ver a mulher, mas ela já lá não estava. Desaparecera. Rui correu a rua com os olhos e nada. Nem sinal dela.
Arrepiou-se. Aquela noite quente tornara-se fria de repente e o seu tronco nu pedia agasalho. Deitou-se e dormiu.
Não foi a última vez que a viu. Na noite seguinte, antes de regar os Bonsai, espreitou para a rua em busca dela.
Nada.
Mas quando voltava para o quarto ela estava de novo lá, desta feita a poucos metros do seu portão. Aparecera como desaparecera na noite anterior. Naquele momento Rui nem pensou: desceu as escadas e foi à rua ter com ela. Mas sem sucesso. Desaparecera.
"Claro" pensou.
Voltou a dormir, mas aquela noite não foi tão serena. O Rui teve um sonho, outra novidade na sua rotina.
Sonhou com um casamento. Estava num jardim e via os bancos com os convidados de pé. Todos de costas para ele. Ao fundo estavam a noiva e o padre. Ela também de costas. Ele de frente e imóvel. Rui reconhecia-o. Era o mesmo padre que deveria ter casado, se a Sara não tivesse morrido. E ela... O vestido era o que a Sara tinha escolhido. Estaria a viver o seu casamento?
Do nada surge Carlos, o padrinho: "Então?! Onde estiveste?"
"O que se passa?" Perguntou Rui.
"Estás atrasado! É o que se passa! Estamos todos à tua espera!" Apontou na direcção da noiva e continuou "ela está à tua espera."
"Há quanto tempo?"
"Há muito, muito tempo..."
Rui avançou na direcção do padre e da noiva. O padre permanecia imóvel. Os convidados também.
Ao aproximar-se dela viu que aquele vestido não era só igual ao da Sara. Era igual ao da mulher que surgia na sua rua todas as noites. Então parou.
Ela virou-se. Não era a Sara. Era a noiva da sua rua. Nas mãos segurava o mesmo ramo com que surgira nas noites anteriores. A cara era branco de morte e os seus olhos não tinham íris. Estavam vazios e eram dois pontos brancos no meio do negro profundo que era a parte do rosto que as circundava. Os seus lábios vermelhos, mal pintados, esboçaram um sorriso ternurento.
Ele, em pânico, virou-se para sair dali, mas uma mão gelada e forte agarrou-lhe um braço, fazendo-o voltar a enfrentar a noiva. Ela ainda mantinha o sorriso. Levantou a outra mão e tocou-lhe no rosto. Gelou-o.
“Finalmente” disse ela na mais suave voz que ele já ouvira.
Aproximou-se para o beijar e ele gritou terminando aquele pesadelo com um salto na cama.
Já era dia. A rotina esperava-o. Ele mergulhou nela com prazer, mas sempre com aquele sonho na mente. Sempre que se recordava, gelava.
Durante o dia, inconscientemente, olhou para o relógio mais vezes do que o habitual. Estava ansioso pela noite. Por saber se seria novamente visitado. Desta vez não haveria como lhe fugir. Não sabia como. Mas haveria de conseguir saber quem era aquela mulher.
A noite caiu como asas negras. Mal deixou de ser perceptível o mínimo vestígio de dia no horizonte ele saiu à varanda em busca dela.
Nada. Ninguém. Ele procurou na rua toda. Nem sinal. Sentiu-se traído. Sonharia de novo?
Regou os Bonsai e tomou o caminho do quarto, onde procuraria respostas nos sonhos.
Junto à porta do quarto deteve-se. Ela estava lá. Desta vez mesmo em frente ao portão e virada para a casa. Cabeça baixa e nas mãos o mesmo ramo que segurava no altar durante o sonho do Rui.
Ele esperou o dia todo por aquele momento mas só então se apercebeu que  não sabia o que fazer. Ir lá abaixo? E se ela desaparece como da outra vez?!
"Quem és tu?" Perguntou-lhe.
Não obteve resposta e por isso insistiu. "O que queres?"
Ela levantou a cabeça lentamente para ele mas não disse nada. Na cara trazia a mesma expressão do sonho do Rui. Olhos brancos em órbitas negras e lábios vermelhos como sangue.
Ele estava obececado por uma resposta e decidiu ir ao encontro dela. Se desaparecesse, amanhã voltaria de certeza. Mais perto até, certamente. Virou-se para tomar o caminho das escadas mas deu de caras com ela. Estava mesmo ali atrás dele e nem lhe deu tempo para pensar. As suas mãos tomaram-lhe os ombros gelando-o, como no sonho. “Finalmente”, disse ela antes de encostar os seus lábios nos dele e lhe sugar a vida. Ele esperneou, tentou afastá-la e até tentou acordar como fizera na noite anterior.
Mas tudo aquilo era real. Em breve ele acordaria noutro lugar que não aquela varanda.
Oficialmente, o Rui morreu de ataque cardiaco naquela noite. Estranha coincidência ter sido o sétimo homem solteiro a quem tal aconteceu naquela rua no espaço de dois meses.

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Sérgio Martins, licenciado em Novas Tecnologias de Comunicação na Universidade de Aveiro em 2007, ganha a vida como freelancer na área de comunicação multimédia e como formador de diferentes unidades ligadas à informática e múltimédia.

Nos tempos livres dedica-se à fotografia e à escrita de curtas histórias e guiões de variados géneros para vídeos elaborados pela Vagabond Movies (de que é um dos membros fundadores) e colabora pontualmente com os All Nakeds.

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Curta-metragem - Um Projecto em Andamento

O conto está feito. A equipa de direcção está reunida. O guião está a ser escrito.

Falta aquilo que neste mundo faz os projectos e os sonhos andarem: o dinheiro. Esta curta metragem será feita com orçamento zero (nada, népia, nicles)! Vamos, através da Vagabond Movies, andar a bater a portas para procurar actores, locais de filmagem e apoios para tornar esta nossa ideia em realidade. E vamos conseguir.

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